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A Serra de Santana está posicionada no Centro Sul do Estado do Rio Grande do Norte, próximo à divisa deste com o estado da Paraíba e mede leste a oeste aproximadamente 55 km e sul ao norte 9 km. Seu formato é irregular, sendo mais estreito de norte a sul e mais largo de leste a oeste.

Serve de divisor das águas pendentes das micro regiões do Seridó, do Açu e do sertão de Angicos, na parte leste contribui com água para o rio Potengi. O solo é arenoso, plano, levemente ondulado, não existem córregos e nem rios, quando chove às águas se infiltram desaparecendo instantaneamente. O clima é frio e seco. A vegetação é do tipo arbustivo, entre estas a mais comum é o facheiro, planta da família dos cardos, abundante na região. Seguindo-se a aroeira, o angico, o ipê, o conhecido pau-d’arco, o cumaru, a umburana de cheiro, a umburana comum, a jurema, a catingueira, o espinheiro e tantas outras, pois a vegetação na serra é muito diversificada, inclusive com plantas medicinais.

Na chapada da Serra de Santana e despenhadeiros, havia muitas caças, tais como, onça preta, pintada e vermelha, macaco, gato selvagem, raposa, veado catingueiro, porco do mato, tamanduá, tatus diversificados, preás e muitos ratos, como também no despenhadeiro da serra (cálculos de pedras), havia mocó em abundância e uma vasta quantidade de pequenos animais que não me é possível identificar com precisão. Entre os pássaros, existiam muitos que também devem ser lembrados, começamos pelos gaviões, grandes e pequenos, com cores e tamanhos diferentes, inclusive a acauã e o Jucurutu. Entre os trepadores, a arara (verde), papagaio, jandaia, maracanã, periquito, etc. Outros pássaros numerosos dos quais cito alguns que considero de maior destaque, seja pelo canto ou plumagem de cores, o Urutau ou mãe da lua, que nas noites enluaradas alegra com suas curiosas gargalhadas, o sabiá, a pertica, o canário, a juriti, o corrupião (concriz), a pega e a graúna, cito também, os galos de campina, os pica-paus, os beija-flores, as corujas que mesmo não tendo canto, nem cor atraente, não podem ser esquecidas.

Os sapos que pelo fato de não haver água, não deixaram de existir, dado ao clima agradável e alimentação farta. As Cobras de várias espécies, cito as mais venenosas como sejam: a cascavel, a jararaca, a coral e outras, pelo tamanho e força: a conhecida regionalmente como veadeira, também semelhante em porte e veneno, suas peles eram comercializáveis, por esse motivo eram todas muito perseguidas pelos caçadores.

Todas as espécies que demonstro neste relato estão quase extintas, atualmente, bem poucas existem de todos estes viventes.

INDÍGENAS
OS PRIMEIROS HABITANTES

Quando a Serra de Santana foi reconhecida pelos brancos, viviam aqui alguns índios, o que damos a entender que estes não moravam definitivamente e sim por determinado tempo. Talvez nos anos mais chuvosos, já que em toda região serrana não existia nenhuma fonte de água permanente na qual eles pudessem se abastecer. Mas existiam em vários pontos na chapada, sinais que eles aqui permaneceram; bem próximo à lagoa havia um desses lugares, onde se via claramente o local das cabanas, ou seja, o conjunto das casas em sentido circular, como também restos de vasilhames de barro que eles usavam.

Em 1960, foram encontrados por uns pesquisadores, vários objetos de uso indígena, mas todos deformados. Dez anos depois foi encontrado no mesmo lugar pelo agricultor Felinto Jerônimo, um vaso de barro feito com a argila da Lagoa. O recipiente tinha a forma de bandeja, semelhante ao bojo de um violão e estava perfeito, mas, Felinto não valorizou o achado e não o guardou com o necessário cuidado, de modo que o vaso caiu e rebentou, tendo sido em seguida, jogado no lixo. Da mesma maneira, os primeiros moradores brancos, nada conservaram das relíquias deixadas pelos índios.

RECONHECIMENTO DA SERRA

Quando e como foi reconhecida a Serra de Santana?

Essa pergunta tão frequente sempre me preocupou. Especialmente na época mais necessária em que a Serra está em pleno desenvolvimento social, político e cultural, o que para mim considero importantíssimo. De uma vez que os habitantes serranos, pugnam por esses conhecimentos básicos e fundamentais, que certamente vão auxiliar no desenvolvimento da futura geração serrana.

Atendendo a estes anseios, quero expor aos interessados, alguns conhecimentos neste sentido, sendo do meu próprio ou através de pessoas que me antecederam e guardaram na memória fatos ocorridos anteriormente. Sabemos que este acontecimento se deu nos anos em que o Coronel Cipriano Lopes Galvão, instalou uma fazenda com criação de gado na proximidade da serra em um lugar denominado “Totoró”. Não sei a origem desse nome, esse ocorrido deve ter sido poucos anos antes de 1750. Pois segundo dados comprobatórios, ele casou-se em 1753, sendo que antes do casamento já morava na fazenda, com alguns auxiliares e escravos. E como se dedicou ativamente na pecuária, tornou-se um grande e respeitável fazendeiro na região.

Em 1753, o Coronel Cipriano Lopes Galvão casou-se com D. Adriana de Holanda e Vasconcelos que morava no Recife – PE, onde ficou com a mulher um pouco tempo, mas precisou voltar para cuidar da fazenda. Como Dona Adriana recusou-se a acompanhá-lo, ele teve que voltar para cuidar de sua atividade. Tempo depois a mulher resolveu morar com ele, então o Coronel foi para trazer a família, fez uma viagem muito cansativa e um pouco demorada, visto a distância do Recife/PE até o Totoró e também pela lentidão, de uma vez que o transporte era na época feito em cavalos e mulas. Tinham que atravessar trechos na estrada deserta e sem água, ocasionando sufoco até mesmo para os animais. Meu avó Joaquim Félix, me falava muito sobre essa viagem que ouviu contar pelos seus amigos e parentes, ele mesmo não viu, pois ele nasceu noventa anos depois, mas isso bem pouco nos interessa, voltamos a tratar do coronel e da sua atividade.

Naquele tempo o campo era livre, o gado pastava livremente, não havia seca que impedisse, e nos anos de estiagem de poucas chuvas, havia escassez de pasto e água. O gado bebia em poços nos leitos dos rios, formados pelas enxurradas, nas enchentes dos mesmos, na época das chuvas. E quando as chuvas não caiam os poços secavam e o gado se dispersava campo afora a procura de água e alimentos, seguindo em todas as direções, afastando-se da sede da fazenda, dificultando os vaqueiros rever totalmente o rebanho.

Enquanto isso o gado ou rezes como eram mais conhecidos desapareciam constantemente, uns morriam, outros a onça estragava e os que se embrenhavam tornava-se difícil encontrar. Ninguém podia prever o número do gado existente, nem também os desaparecidos, apenas notavam falta das rezes mais conhecidas.

Foi quando o coronel ordenou aos vaqueiros atentarem subir a Serra, pois como ficava próxima da fazenda, o gado poderia ter conseguido subir até o cimo. Os vaqueiros obedecendo à ordem deram início ao trabalho que não era tão fácil. A subida íngreme, o mato cerrado, quase impenetrável, depois de muito esforço, conseguiram chegar a chapada, apesar de pouca experiência que tinham, notaram a terra um pouco estranha, muito diferente do Totoró e toda região por eles conhecida, tanto no solo, quanto na vegetação e até mesmo no clima. Fizeram uma rápida observação local e encontraram vestígio de gado, mas não podiam ficar por mais tempo, pois não estavam munidos com água e alimento suficiente, mas voltaram trazendo boas notícias, não acharam o gado, mas as pegadas.

O Coronel autorizou nova viagem para ver se encontrava o gado, o que era bem possível, aumentou mais o pessoal que além dos vaqueiros iam também homens munidos com ferramentas para abrir o mato, um caminho que melhor desse passagem. Pois no caso de encontrar o gado facilitaria a caminhada com eles. Recomendou que levassem alimentação suficiente para mais dias, caso fosse necessário.

O pessoal seguiu abrindo caminho, procurando o lugar mais acessível, por onde pudesse subir comodamente; não conhecemos o lugar exatamente por onde eles subiram, nem também sabemos se foi essa a primeira estrada partida da fazenda Totoró à Chapa da Serra. O que sabemos é que os vaqueiros subindo as trilhas encontraram algumas rezes nas proximidades de uma lagoa, quase oculta dentro do mato, e ao redor da mesma o mato verde fechado, um cipoal intricado, difícil de penetrar os quais formavam um trançado com as árvores mais frondosas e isso impedia ter uma ideia do tamanho exato da lagoa e calcular o volume d’água.

O gado fizera algumas aberturas e por estas entrava e bebia. Por causa da densidade do matagal que envolvia a lagoa eles não notaram que a mesma se dividia em duas partes. Que na estiagem se dividia uma parte da outra em um espaço de cem metros aproximadamente.

Algum tempo depois os vaqueiros andando por ali a ver se encontravam mais rezes descobriram outra lagoa bem próxima à primeira já conhecida e deram o nome de LAGOA NOVA, por ter sido encontrada em segundo plano. Tudo indica que logo ao acharem a nova lagoa e talvez algumas rezes, apressaram-se e voltaram à fazenda Totoró dando ao coronel mais uma boa nova, como também levaram uma amostra da terra para que este pudesse comprovar a informação por eles dada.

O Coronel Cipriano Lopes e sua mulher D. Adriana de Holanda e Vasconcelos examinaram a terra trazida pelos homens e chegaram à conclusão que seria boa para o plantio de mandioca, visto ser semelhante à terra de Goianinha/PE e de alguns lugares nas proximidades do Recife/PE. O coronel mandou fazer um pequeno plantio experimental de mandioca e a tentativa deu certo. Por isso ele mandou construiu uma casa aparelhada para fazer farinha, mas, infelizmente não podia morar gente na Serra, dada à inexistência de água tornando impossível intensificar o plantio, quanto a outras plantações a ele não interessava.

AS PRIMEIRAS PLANTAÇÕES NA SERRA

Já sabemos que o Coronel Cipriano Lopes Galvão, foi o primeiro plantador de mandioca na Serra de Santana, a dificuldade existente na região e os obstáculos encontrados. Ele não dispunha de pessoal disponível para o efetivo trabalho, desde a plantação até o transporte. Como também o armazenamento para manter a farinha em perfeita condição de consumo, o que tornava o produto muito caro. Vendo isso ele contentou-se em plantar apenas o suficiente para o consumo do seu povo que não era numeroso. Assim ficou a serra por alguns anos, inaproveitável, até que os seus sucessores tomassem novas iniciativas.

Depois da morte do coronel toda a administração ficou com Dona Adriana, que casou-se pela segunda vez com Félix Gomes, que tudo indica não tido nenhum interesse pela serra. Mas D. Adriana que era de uma administração admirável, manteve o patrimônio deixado pelo primeiro marido em perfeita ordem. O casamento dela com Félix Gomes durou poucos anos, ele morreu e ela casou-se pela terceira vez com o Coronel Antônio da Silva e uns anos depois foi morar em Caicó/RN, deixando em seu lugar o filho Félix Gomes Pequeno, que também não tinha interesse pela Serra. E como iam se instalando novas fazendas e crescendo a população, era necessário também de uma gerência generalizada capaz de reger, assistenciar e decidir as causas surgidas entre os habitantes na região.

O Capitão Cipriano Lopes Galvão, era um homem que tinha grande administração e como sendo na época um grande pecuarista, prendia-se muito a sua atividade, sediada às margens do Rio São Bento, também não interessou a ele lidar na plantação na chapada da serra. Foi ele o primeiro Capitão Mor filho do Coronel Cipriano Lopes Galvão e Dona Adriana de Holanda e Vasconcelos. Mesmo assim, manteve alguns cuidados com a vila recém criada no lugar denominado Currais Novos.

Mas, com o passar dos anos, as fazendas novas iam se formando na região, tornando-se necessário aumentar na serra o cultivo da mandioca, o que aconteceu na administração do Capitão Mor Gonçalo Lopes Galvão, filho do Capitão Mor Cipriano Lopes Galvão e neto do Coronel Cipriano Lopes Galvão e Dona Adriana de Holanda e Vasconcelos. Segundo meu avô Joaquim Félix, de quem guardo na memória casos por ele citados e que faço chegar aos leitores como fatos que considero de valiosa importância.

CAPITÃO MOR GONSALO LOPES GALVÃO

O Capitão Mor Gonsalo Lopes Galvão, fez uma excelente administração, era homem de ordem e muito pacato, desenvolvia sua atividade econômica (pecuária), e colaborava ativamente na parte social desenvolvendo a vida que engatinhava morosamente em sua administração, assim as funções na região desenvolveram-se tomando um impulso maior e dando condições a outros novos moradores, que interessassem morar na vila.

Evidentemente que seus familiares participaram na conquista pelo bom andamento ampliando a economia, tanto na pecuária quanto na agricultura, que indispensavelmente precisava haver. Desta vez foi ativado o plantio de mandioca e também de gêneros de primeira necessidade na Serra de Santana, que durante muitos anos havia ficado quase abandonado.

Com as medidas tomadas pelo Capitão Mor Gonsalo Lopes Galvão, elevou-se o interesse não só dos familiares deste que na época já eram muitos, todos exercendo a pecuária, havia outros moradores que chegavam de outros lugares e arranjavam moradia e terreno para plantar, mas não conseguiam condições de se tornarem fazendeiros. Dedicavam-se então, mais a agricultura nas margens dos rios, especialmente no cultivo do algodão. Quase sempre cuidavam um pouco da plantação de mandioca na serra, já que a farinha do agreste se tornava cara e difícil porque não dispunham de animais de transporte.

A solução seria aumentar na serra a plantação de mandioca e construir mais casas equipadas para as “desmanchas”, como falavam na época e como dada à escassez de água iam também construindo no despenhadeiro da Serra uns reservatórios para a coleta de água no período chuvoso. Cito como exemplo, o Barreiro da Comunidade Santa Rita, essa água era usada no tempo oportuno. Na época das plantações e colheitas esses reservatórios conhecidos como barreiros contribuíam muito para o adiantamento na lavoura, acima de tudo para as residências dos agricultores no setor, onde esses podiam cuidar mais ativamente dos seus roçados.

Alguns já tinham tentado algo nesse sentido mais não tinham bons resultados, mesmo na proximidade da lagoa, onde foram iniciadas as primeiras moradias, visto que a água que juntava na lagoa com as chuvas periódicas durava pouco tempo. E nos anos de pouca chuva, nem pouca água juntava, de modo que os que se dispunham a morar estavam sempre de volta ao Sertão aguardando os tempos das chuvas.

Finalmente, desde o tempo do Coronel Cipriano Lopes até a administração do Capitão Mor Gonsalo Lopes, a serra passou quase incultiva e desabitada, só depois de 1860 é que mesmo enfrentando a escassez da água, pouco a pouco, algumas famílias obrigaram-se a morar na serra, algumas das quais por impossibilidade de poder morar em outras localidades. Podemos claramente afirmar que, da chegada do Coronel Cipriano Lopes ao Totoró, até os primeiros moradores efetivos na Chapada Serrana decorreram mais de 100 anos e desse tempo até a libertação dos escravos, foram aproximadamente 50 anos e que em todo esse tempo, as pessoas que frequentavam a serra eram os caçadores, os vaqueiros das fazendas próximas e os poucos plantadores de mandioca, como sabemos esse produto não podia faltar na mesa dos sertanejos, como também sabemos que foi feito de modo experimental e que o cultivo da mandioca continuava sempre crescendo até nossos dias.

Apesar de tantas outras culturas que entravam em uso, mas, foi sempre a mandioca que prevaleceu apesar das grandes estiagens que ocorriam constantemente, foi através desta que se povoou a chapada da Serra de Santana.

OS PRIMEIROS HABITANTES PERMANENTES

Já sabemos que a Serra de Santana foi reconhecida pelo meado do século XVII, mas só depois de 1860, com o fim da Guerra do Paraguai, foi que chegaram os primeiros habitantes permanentes. Antes as tentativas não tiveram êxito. Durante os cinco anos de guerra, viveram aqui muitos rapazes, alguns dentre eles eram casados, fugiam das fazendas e se abrigavam na serra morando em barracos, mudavam constantemente temendo a captura que faziam, levando-os para os combates no Paraguai. Com o fim da guerra os que conseguiram salvar-se já tinham suas lavouras e não quiseram abandoná-las, trouxeram as famílias e fixaram moradas em várias localidades, desde que conseguissem água nas proximidades.

Em 1888, aconteceu à abolição à escravatura, 18 anos depois da guerra e com a libertação dos escravos, aumentou consideravelmente o povoamento na Serra, pois os fazendeiros senhores de escravos sediados nas proximidades da mesma, não podendo continuar com escravos em suas dependências, fizeram-se donos das partes na Serra, que confrontassem com suas propriedades às margens dos rios, alegando que estas a eles pertenciam de modo que os escravos iam saindo das fazendas e se quisessem morar na serra, recebiam do ex-senhor permissão tal, nos lugares por eles indicados. Nesse caso, os fazendeiros tinham interesse não em proteger os escravos e sim em assegurar a posse da fazenda. Isso porque eram vários que pleiteavam esse direito.

Como já sabemos as primeiras casas construídas no cimo da Serra, eram destinadas ao fabrico da farinha, e mais tarde serviram também como habitação para os primeiros habitantes, das quais muitas foram destruídas pelo tempo, mesmo assim serviam para abrigar as famílias que chegavam. Como a maioria dessas casas se encontrava deterioradas, os recém chegados iam aproveitando a madeira e construindo novas casas das que restaram. Talvez das mais recentes apenas quatro consigo identificar os nomes dos proprietários: a primeira era no lugar hoje denominado Piauí, construída pelo Coronel Cipriano Lopes Galvão, talvez a mais antiga e mais conservada, outra no Sítio Umarizeiro feita por um tal Manoel Teixeira; uma outra no Centro da Serra, feita pelo Barão da Serra Branca, Felipe Nero de Carvalho, esse lugar é hoje conhecido com o nome de fuso velho, a casa desapareceu, mas o fuso ou parafuso da prensa resistiu por muitos anos; a quarta casa foi construída pelo Capitão Joaquim Bezerra, no Sítio Santa Rita. Existiam muitas outras casas nas proximidades da Lagoa que ficaram abandonadas e como eram construídas com madeira e sem a devida conservação não resistiram a ação do tempo. Eu mesmo conheci algumas taperas, mas, os nomes dos seus proprietários eram desconhecidos, quase todas essas casas abrigaram pessoas vítimas de perseguições.

De 1888 a 1900 chegaram outros moradores que, apesar de desconhecerem o ambiente iam, pouco a pouco, se habituando ao convívio que na época era muito penoso.

HABITANTES DEFINITIVOS

É preciso que o leitor faça uma distinção entre os habitantes temporários e os definitivos. Os primeiros não resistindo às dificuldades encontradas voltaram às antigas moradas ou procuraram morar noutro lugar, mas, os secundários persistiram. Muitos já conheciam o terreno e nele plantavam. Era preciso morar também com a finalidade de melhor assistenciarem suas lavouras, formaram uma pequena criação de galinha, cabra e animais de carga, que lhes dessem uma condição de sobrevivência mais digna, especialmente na alimentação, pois a desnutrição nas crianças era alarmante.

Com essas medidas postas em prática surgiu uma nova dimensão ambiental. Enquanto os trabalhadores acionavam os projetos por eles mesmos elaborados, iam também surgindo os efeitos satisfatórios, acima de tudo, atraindo mais gente para morar e trabalhar nas terras serranas, extensas e disponíveis.

Mas, todos os que chegavam eram exatamente pobres, sem condições de desenvolver um trabalho mais ampliado e melhor cuidado. Sem os recursos necessários, eles ficavam privados de terem maior produção e melhor qualidade. O tratamento de conservação para a produção não era ainda conhecido, no entanto todas nas margens dos rios próximos da Serra, conforme já vimos no início capítulo, iam se formando novas fazendas. Os filhos dos fazendeiros iam casando, formando novas famílias e todos morando na mesma região. Dependiam dos produtos oriundos da Serra, especialmente da farinha, isso obrigou a estes atentarem para algum benefício, visando não só amenizar a situação dificultosa dos serranos, mas, em seu próprio bem-estar. Abriram novas estradas, recuperaram as já existentes condicionando melhores acessos na condução dos produtos até as fazendas e também às regiões próximas de preferência, Santana do Matos/RN e Açu/RN. Na época, essas cidades eram as mais influentes, de onde havia um caminho que partindo desta passava por cima da Serra e penetrava no estado da Paraíba.

Esse trabalho feito pelos fazendeiros contribuiu bastante para convívio habitacional Serrano e não somente aos serranos, pois foi por ela que transitaram os tropeiros durante muitos anos, trazendo do Brejo Paraibano, a rapadura, a aguardente, o café, o fumo e outros produtos. Como Também levavam o nosso queijo, a manteiga, a carne de sol, o couro curtido, etc. Essa transação comercial durou por muitos anos, até quando foi substituída pelos caminhões.

Voltamos agora ao assunto anterior, o qual devemos melhor conhecer. A maior dificuldade para morar na Serra era a inexistência dágua, mesmo assim eles insistiram. Na época chuvosa se abasteciam na lagoa, no estio procuravam rios, chegavam a caminhar até 6 km de distância. É importante lembrar que as primeiras casas construídas eram especialmente apropriadas para o feitio da farinha, constavam apenas de quatro paredes e a cobertura, não havendo cômodo para abrigar família. Mesmo assim, era onde ficavam os recém chegados. Essas casas eram quase todas construídas próximas ao despenhadeiro acompanhando a orla da Serra na parte Leste e Sul, onde ficam as nascentes dos rios São Bento, Areia, Totoró e também a nascente do Rio Potengi. Podemos ver que para povoar a Serra não era fácil, de uma vez que os fazendeiros não tinham interesse e os pobres não tinham condições, o que durou as tentativas mais ou menos 100 anos. Desde o domínio do Coronel Cipriano Lopes ao do neto Gonsalo Lopes Galvão.

O aumento da população nas fazendas tornou-se excessiva, não dava para todos morar às margens dos rios, pois as terras eram utilizadas pelos proprietários na criação de animais. Os pobres não tendo como criar ou plantar e também não tendo onde morar, encontraram como solução se recorrerem a serra.

Antes de 1870 chegaram alguns moradores, estes viviam isolados, não conheciam vizinhos naquela região, pois tão distanciados moravam uns dos outros, foi o caso de João Velho, adiante falaremos sobre ele. Só depois de 1850 os moradores foram aos poucos chegando, construindo barracos e cuidando de pequenas lavouras, não podemos esquecer que já existiam vários plantios de mandioca, porém os donos não moravam na serra. Portanto vemos que o interesse no sentido de povoar a serra era verdadeiramente importante e as tentativas com essa finalidade foram muitas, insistentes e perseverantes. De 1888 à 1900 a serra estava praticamente povoada, não eram muitos os habitantes, mas, definidos. Esses primeiros moradores quase não dispunham de animais de carga, só alguns poucos jumentos ou éguas, mas nem todos. Havia alguns que nada tinham e os que tinham as montarias, lhes faltavam vasilhame apropriado para conduzir a água que conseguiam nos rios já citados. Muitos transportavam a água na cabeça, utilizando potes de barro ou cabaços e como os caminhos eram muito irregulares, cheios de pedras, sulcados e sinuosos, por onde, homens, mulheres e até crianças subiam as ladeiras carregados com as vasilhas cheias. Não poucas vezes cansados, acontecia que tropeçavam se desequilibravam e caiam junto com o pote perdendo a água e o pote.

Mesmo assim eles não desistiam continuavam com a esperança de um dia vencer. Continuavam na luta, plantando não só mandioca, mas o milho, o feijão e outros produtos alimentícios, como também a mamona e o algodão que era base fundamental especialmente na confecção do vestuário, redes e cobertores e até chapéus, quase todas as mulheres eram fiandeiras, usavam fusos manuais, outras eram tecedeiras, assim todas participavam desse trabalho artesanal. Isso porque os produtos industrializados além de serem caríssimos, não tinham condições de usá-los constantemente. As mulheres tinham sempre um vestido de chita para irem a uma festinha, um passeio, que raramente acontecia; quanto aos homens (nem todos) usavam calça de brim barato e camisa de cetim também barato. Mas só quando saiam à negócio.

A mamona era também um produto útil, era com o óleo da semente que alimentavam as luzes, não podiam deixar de plantar e como é até hoje medicinal, os primeiros moradores tinham sempre um pouco de óleo (azeite), reservado para casos imprevistos, não só no tratamento humano como também nos animais e também lubrificante. Tudo indica que houve em princípio tentativa no cultivo algodoeiro.

Talvez porque este sempre foi um produto mais comercial, uma prova disso é que no Sítio Umarizeiro, propriedade que pertencia a Manoel Teixeira, existia uma bolandeira, para descaroçamento do algodão, mas, não se sabe a quem pertencia, parece que esse plantio não teve efeito satisfatório, também não temos como avaliar com certeza, o tempo que tentaram introduzir esse tipo de plantação. Talvez tenha sido logo que o Coronel Cipriano Lopes iniciou o cultivo de mandioca.

Com o crescimento populacional na serra, a carência de vida dos habitantes também crescia e logo entre eles novas ideias, novos planos que pudessem conter as grandes dificuldades em que se encontravam. Vivia essa gente apelando para o porvir conformados com o tempo que passava dia após dia a maior lamúria, mas firme na esperança de que tudo passaria e continuavam com os seus trabalhos sem muita atividade e preocupação. As derrubadas das matas eram perigosas. Eles lidavam com ferramentas muito afiadas: foices e machados, e isso os deixava atemorizados porque os acidentes eram inesperados e inevitáveis. Assim viviam, no maior desconforto conforme já vimos nas páginas anteriores.

Porém no meio de tantas indecisões, eles ainda encontravam horas para aliviar um pouco os seus desatinos, momentos que faziam esquecer as horas sufocantes e cansativas, substituídas por outras mais alegres. Alguns se distraiam caçando com espingardas aos domingos e as noites, às vezes caçavam com cachorros. Quando tinham sorte matavam veados, maracajás e porcos selvagens. As noites caçavam tatu, tamanduá e outras caças. Na época colhiam mel de abelha com que adoçavam o café, o chá e também o alimento das crianças. Essa atividade prendia-se mais aos chefes de família, mas nem todos.

Quanto aos homens e rapazes não dedicados ao que acima citamos, juntavam-se nos dias de folga geralmente aos domingos e formavam uma brincadeira, conforme o tempo disponível e a preferência dos companheiros era comum juntarem-se em uma casa de farinha aonde houvesse um pátio mais amplo ou a área coberta da casa mais cômoda. Juntavam-se no local escolhido, rapazes, moças e até pais e mães de família inclusive crianças de 1O a 12 anos de idade que imitavam e se dedicavam aos mesmos esportes dos adultos. E as mulheres divertiam-se com as escaramuças dos debatedores. Naquele tempo usavam-se vários esportes que hoje desapareceram com o passar do tempo e com a técnica moderna.

O ESPORTE

A queda de corpo era um dos esportes mais usados, era semelhante ao Jiu-Jitsu de hoje, sendo que a queda de corpo é de forma prática e não técnica. Dois homens se grudavam com o fim de quedar um ao outro e entravam em luta, o que caísse perdia a partida e era vaiado pelos torcedores. A queda de braço era semelhante, dois homens formavam um par e se posicionavam ao redor de uma mesa, em sentido oposto, pegavam na mão um do outro, firmavam os cotovelos na superfície da mesa apertavam as mãos enrijeciam os punhos e puxavam cada um para o seu lado com toda a força que tivessem, o que não resistisse fraquejava e perdia para o companheiro, mas com o direito a repetir, caso não interessasse ficava fora, de forma que outro ocupava o lugar.

O jogo de peteca só acontecia na época em que o milho amadurecia, pois eram com a palha das espigas que se confeccionavam as petecas. Então se reunia um grupinho de rapazes e atiravam a peteca ao ar e ficavam a passar de um para o outro até que um dos jogadores deixasse a peteca cair, assim eles repetiam quantas vezes quisessem.

Enquanto isso, os que não estavam jogando assavam as espigas em fogueirinhas e assim faziam à festa. Também haviam outras formas de divertimento, o jogo de cartas, nas quais eles qualificavam os nomes das formas do jogo: sueca, bisca, solo, etc. Também cantavam modinhas amorosas e improvisos poéticos acompanhados com violas ou rebecas. e nas festas mais luxuosas, como festa de casamento, por exemplo, conseguiam um tocador de realejo ou violeiros, cantadores e improvisadores, o que era muito comum na época. Mas na medida em que os anos iam passando tudo ia se transformando, a população crescendo e se modernizando.

ATOS RELIGIOSOS

Os primeiros habitantes da Serra de Santana, eram todos seguidores da religião através da Igreja católica. Os pais ensinavam fervorosamente as orações que aprendiam com os seus genitores passando para os filhos. Havia um livro de orações com a cartilha da doutrina cristã, mas quase ninguém sabia ler, mesmo assim os pais iam aprimorando a família com o que aprendiam decorado e guardado na memória. Era comum rezar diariamente nas refeições, antes de dormir, pela manhã ao despertar, antes de viajar e ao retornar. Era obrigação das crianças e adolescentes pedirem a benção aos idosos, mesmo sendo desconhecidos, como forma de respeito.

Nas festas religiosas organizadas pelos moradores de uma região, sítio ou fazenda era comum festejar um santo em seu dia, de uma vez que sendo religiosos totalmente católicos praticavam os atos de fé cristã, veneravam os santos de sua devoção, pedindo a intercessão destes em seu favor, a Deus o Salvador. Já que se sentiam privados de assistirem os atos mais sublimes da religião que seguiam, devido ao meio em que viviam.

Assim eles alimentavam a fé em suas próprias casas em família, ou em conjunto com os vizinhos mais próximos. Rezavam terços, novenas e especialmente no mês de maio rezavam a novena durante os trinta dias, louvando nossa senhora e cantando hinos, oferecendo buquês de flores pedindo sua intercessão diante do Senhor (Deus). Era costume também anualmente festejar um santo de uma maneira mais organizada, para isso convidavam os sitiantes da região, para um acompanhamento, ou seja, uma procissão no dia do santo escolhido. Tomamos como exemplo, São João Batista, muito venerado por ser o precursor de Cristo.

É natural que em qualquer setor habitacional especialmente nos sítios haja um líder merecedor de confiança entre os demais. Então o promotor da festa juntamente com os amigos planejava tudo para o evento. E como no mês de junho os caminhos estavam apertados, dado ao crescimento da vegetação durante as chuvas ocorridas na época, era necessário um trabalho de limpeza e alargamento nesses caminhos. Geralmente o faziam, cortando as ramagens, cortando tocos para que não houvesse acidentes no decorrer da viagem.

Chegava o dia 23 de junho, logo pela manhã em ambas as casas, fosse da saída ou da chegada da procissão, as pessoas da família davam início aos arranjos da casa que devia estar em ordem. Na casa onde ia haver a novena o trabalho era mais intenso, mais o pessoal ia chegando mais cedo e em maior número. A lenha para a fogueira que deveria ser de madeira especial, de preferência catingueira que dá forte labaredas e pouca fumaça, já estava amontoada. O mastro da bandeira que era indispensável, pois simbolizava a festa, era todo revestido com flores e ramos campestres e depois em seu topo era colocada uma bandeira branca com uma cruz estampada. Ou se houvesse em lugar da cruz uma estampa da imagem de São João.

Agora que terminara o trabalho, a fogueira feita em frente da porta, a bandeira no lugar fincada ao lado da fogueira. Na sala as mulheres colocavam uma mesinha, coberta com uma toalha branca e ornamentavam com flores de papel colorido. O Dono da Casa ordenava que fossem a roça buscar o milho verde para assar na fogueira, depois que terminasse a novena. Na casa de onde saia o cortejo, os trabalhos eram semelhantes: pela manhã a família ia a roça colher o feijão e o milho verde, em casa matavam galinha e preparavam o almoço para os convidados que esperavam, especialmente os tocadores que chegavam em primeiro lugar, munidos com o instrumental, caixa, bombo e pífano.

Eu não conheci pessoalmente esses tocadores aos quais me refiro, mas conheci alguns dos sucessores deles, tais como Cícero Miguel e Ezequiel seu irmão, tocadores de caixa e bombo, o mesmo que zabumba, e um tal Zé Carneiro que tocava pife ou pífano.

Ezequiel era vaqueiro e quase não tinha tempo para acompanhar o irmão nessas ocasiões, quem ocupava o seu lugar era João Barro. Aqui em Lagoa Nova, eu conheci uma dessas orquestras, havia vários pifaneiros sendo os mais destacados o Trio Melo composto dos três irmãos Hermenegildo, Gregório e Francisco Melo, esse último era pifaneiro.

Acredito que o leitor está ansioso para ver a conclusão desta história, para saber o que nela está contido. Como na época· as moradas eram distantes umas das outras era preciso calcular a distância a ser percorrida para não atrasar a hora da chegada. O dirigente alertava: – Gente está na hora! Não podemos chegar depois das sete. O andor que já estava preparado era levado aos ombros de quatro pessoas com muito cuidado e respeito. Ao sair queimavam-se alguns foguetões avisando a saída do cortejo, o andor ia à frente dos tocadores e as cantoras em segundo lugar. Em terceiro ia toda a comitiva, assim caminhavam cantando, tocando e explodindo foguetões. Ao chegarem à casa destinada encontravam a fogueira queimando e algumas pessoas esperando a chegada da imagem e seu acompanhamento. E como tudo estava conforme, iniciavam-se as orações. A meninada que corria alegre ao clarão da fogueira fazia o maior barulho atrapalhando o silencio exigido pelo encarregado especialmente para aquela ocasião. Não era fácil acalmar a garotada, mas conseguiam.

Finalmente terminavam as rezas, os cantores, ou melhor, o coral cantava o hino final, os fiéis beijavam o altar e os que podiam como ofertas davam uma moedinha de vinte réis. Terminando o beijo, entravam na sala os tocadores. O pessoal se acomodava deixando o espaço livre para eles se movimentarem. Estes ao tomarem posição faziam uma genuflexão ao altar e ritmavam os sons em tonalidade aguda e estridente, passeando, rodopiando, agradecendo a Deus e saudando os donos das casas e os organizadores da festa. Esse ato religioso era na época o mais significativo praticado pelos primeiros habitantes da região serrana.

Havia a festa de casamento, mais esta era mais popular, do que religiosa, pois apenas os noivos recebiam as bênçãos sacramentais, obedecendo a um dever cristão e a doutrina imposta pela igreja católica. Os batizados eram religiosamente obedecidos, era o maior e mais sublime ato cristão.

Os casamentos eram celebrados nas paróquias de Currais Novos/RN e Santana do Matos/RN, raramente aconteciam nas fazendas. Durante o período de trinta anos, os habitantes serranos não tinham nenhuma assistência dada por religiosos, para haver um casamento era preciso recorrer a um proprietário, pessoa mais influente socialmente, que se encarregava da documentação, falava com o padre, preparava o papelório e marcava o dia do casamento. Cabia aos pais dos noivos, prepararem os noivos e cuidar da festa. O noivo com a ajuda do pai e amigos construía uma casinha, preparava o terno e alguns pertences indispensáveis. Quanto à noiva, cabia aos pais darem o aprontamento necessário a algo mais que pudesse para o banquete que era indispensável. Engordavam um ou dois porcos, um ou dois bodes e bastante galinhas, compravam arroz e coco para o doce e faziam outras iguarias, como bolos, sequilhos, pão-de-ló e outras delícias.

Providenciava-se com antecedências os animais de montaria, pois a viagem até a paróquia, dista da chapada da serra em média 30 km. Falo aqui daqueles que tinham melhores condições e se relacionavam bem com os demais posses. Quanto aos menos favorecidos faziam esse mesmo percurso a pé. Pediam os animais emprestados aos fazendeiros que os cediam bem arreados. Eles tinham interesse, pois eram os convidados de maior destaque nos festivais. No dia do casamento ao amanhecer partia o cortejo, composto pelos noivos e muitos acompanhantes. Realizado o casamento, voltavam e ao cair da noite estavam chegando. Nessa hora todos estavam reunidos ansiosos para receber os noivos parabenizando e dando vivas, enquanto as moças falavam baixinho aos ouvidos umas das outras e olhos fixos no rosto da noiva que estava recebendo dos pais às bênçãos em nome de Deus, como também os votos de felicidade da vida conjugal.

Nesse momento o dirigente convidava o povo para o jantar, a mesa estava composta, os noivos tomavam os primeiros lugares seguidos dos demais convidados, ocupando todos os lugares. Ao centro da mesa que era bastante longa estava uma fila de garrafas com vinho, que eram abertas uma após outra de acordo com os hóspedes. As mesadas eram repetidas quantas vezes fosse preciso. Enquanto houvesse comida aquele pessoal que pela timidez ou pela simplicidade que se omitiam a se servirem na mesa recebiam seu prato feito e se acomodavam à vontade, mas que ninguém ficasse sem jantar, inclusive a garotada.

Era hora de começar o baile, o tocador de vialejo dava os tons iniciantes e o pessoal entrava em ação: Moças e rapazes e também os casais e até os velhos de 60 se divertiam até o raiar do dia. Os mais endinheirados e que não gostavam de dançar tinham em seu esporte preferido um joguinho de cartas para se divertirem durante o tempo que quisessem. Ao amanhecer se despediam uns dos outros e o dono da festa agradecia penhoradamente aos que compareciam.

LUTAR E VENCER

No decorrer de todos esses acontecimentos que observamos através deste relato, vimos quantas e quantas dificuldades foram encontradas e suas difíceis soluções. Observamos também a coragem, a timidez e a esperança desse povo, de um dia alcançarem objetivo visado.

Vejamos a parte relacionada à saúde na Chapada da Serra. Devido a sua altitude, o sistema climático difere um pouco do sertão, que por ser um plano mais baixo a temperatura se apresenta mais elevada. Isso faz com que, como é natural nos primeiros dias de permanência na nova habitação, as pessoas fiquem um pouco perturbadas. Alguns até adoeciam, especialmente as crianças. Assim chegaram os primeiros e foram chegando mais e mais, até que vieram muitos. Todos com as mesmas intenções: Morar e trabalhar na Serra de Santana. Durante trinta anos eles lutaram constantemente, a cada ano que ia passando, a vivência ia mudando para melhor, mas uma coisa os preocupava: a saúde.

A SAÚDE

Nas doenças sempre frequentes não tinham a quem recorrer, tais como: acidentes nos trabalhos, picadas de cobras e insetos, dores de dentes, de ouvidos, cólicas, furúnculos, panarícios, torcicolos dados no trabalho ou nas viagens. E ainda casos mais perigosos como: o sarampo, a varíola, a tuberculose e tantas outras que sempre terminavam com a morte.

Vejamos um desses casos: Quando morria uma pessoa, enviava-se um parente ou amigo da família à Currais Novos, para comprar a mortalha e acertar com o coveiro para providenciar a cova.

No dia seguinte, juntavam-se os carregadores, colocavam o morto sobre uma grade de madeira rústica trançada com corda, punham aos ombros de quatro homens e caminhavam sempre fazendo o revezamento entre si. Acontecia, às vezes, uma parada enquanto refaziam as forças e logo continuavam a caminhada até o cemitério de Currais Novos. Feito o enterro, o encarregado reunia os carregadores e os levava a uma venda para comprar alguma coisa para uma pequena refeição. Tomavam uns pileques de cachaça e voltavam as suas casas. Essa penúria permaneceu por muitos anos, até que foi construído um cemitério na povoação de Caraúbas, reduzindo a viagem para 2/3, o que favoreceu bastante a população serrana. Em 1936, foi construído o Cemitério Público em Lagoa Nova pondo fim a essa exaustiva tarefa. Mas, outras coisas também eram preocupantes entre elas o comércio de abastecimento de mercadorias de uso familiar. Como também o comércio de vendas dos produtos produzidos na serra, de uma vez que não tinha como fugir dos atravessadores. Era preciso por fim a esse tipo de comercialização, ou pelo menos amenizá-la.

O COMÉRCIO

Durante os primeiros anos de morada definitiva, um dos pontos mais preocupantes foi sem dúvida, a transação comercial. Especialmente as diferenças abusivas de preços usadas pelos atravessadores entre os produtos vendidos e os produtos industrializados comprados pelos habitantes. Na época da colheita o produto agrícola depreciava enquanto os preços das mercadorias que eram trazidas pelos mesmos compradores se alteravam de modo que nunca se equiparavam, até que os agricultores cansados do julgo a que estavam submetidos começaram a procurar um meio de saírem do sufoco, o ideal seria uma feira livre.

Mas como obter isso? Não havia meios. Foi quando em 1901 chegou a Lagoa Nova, um senhor de Currais Novos e estabeleceu uma casa comercial, com um bom sortimento de estivas e bebidas e comprava borracha de maniçoba que estava sendo largamente colhida em toda chapada serrana, cuja extração era rentável, sendo maior para os compradores. Isso dava um dinheiro mais folgado, tanto para os serranos como para os sertanejos vizinhos, que se empenhavam na mesma função a qual deu lugar a outros compradores que no final de semana chegavam e ficavam em determinados locais em toda a chapada comprando o produto. Joca Gomes ficou ocupando uma área de menor produção e como tinha o comércio de compra e venda fazia um negócio bem regular e satisfazia melhor aos fregueses. De modo que Seu Jeca, como era tratado ficou em Lagoa Nova até o declínio da extração. Mas, antes os compradores sentiram que seu Jeca comprava a maior parte da borracha e decidiram formar uma feira e escolheram o setor mais produtivo o qual pertencia ao Município de Santana do Matos, o lugar mais habitado, mesmo com poucas moradas era o Sítio Panelas que além da estrada de Santana do Matos – Currais Novos, passando nas Fazendas Bom Fim e Curralinho, subia a Serra atravessava a mesma e descia do outro lado, passando pelo saco da areia, Fazenda do Gomes Valentim, mais adiante a Fazenda Areia, propriedade do Capitão Lulu, chegando a Cidade de Currais Novos, o centro comercial. Por toda essa acessível condição foi pelos comerciantes o local escolhido para a realização da feira que teve início na entrada de 1900 e teve pouco tempo de duração.

No Sítio Panelas eram poucas as famílias que moravam. Entre elas morava a família Faustino e a Tavares as mais numerosas, mas, moravam outras. A família Faustino descendia de João Daniel e sua mulher Maria Soledade do Espírito Santo, que vieram da Serra do Martins em 1868 e moraram durante vinte anos. Quando este morreu em 1888 e ficaram morando no mesmo lugar a viúva e seus filhos. Bem como Irene Faustino, prima de João Daniel (João Velho), que também veio da Serra de Martins. João Daniel deixou a’ viúva e nove filhos que continuaram trabalhando na Serra e no Sertão e não combinavam com os Tavares e os Catarinos e dividiram as terras que eram indivisíveis e tinham o mesmo nome: Sítio Panelas. Com essa divisão se prepararam, os Tavares e os Catarinos ficaram morando em Panelas e a parte ocupada pelos Faustinos tomou o nome de Serra do Meio, mesmo com essa separação não chegaram a uma completa pacificação, até que chegou um dia fatal, houve desentendimento entre eles e na luta morreu um dos Faustinos conhecido como Pondenga. Os outros irmãos não estavam na ocasião estavam no sertão cuidando de suas lavouras, ao saberem do ocorrido subiram a serra e ao chegarem a casa encontraram o irmão morto e a velha mãe deles, que muito abatida pediu-lhes vingança. Eles ouviram a proposta e aguardaram a oportunidade.

A FEIRA EM PANELAS

Com a feira formada, os compradores de borracha se reuniam aos domingos (dias da feira) e cada comerciante cuidava do seu próprio negócio, comprando e vendendo não só borracha, mas também outros produtos regionais e igualmente outras mercadorias, industrializadas ou não. Vamos relacionar alguns artigos industrializados: tecido e seus pertences, ferragem, enxada, machado, facão. Isso mesmo não se encontrava quase, nem na feira nem também no armazém, só a enxada era facilmente encontrada. Os demais: foice, machado, facão eram confeccionados pelos ferreiros. Nas fazendas havia muitos, só que em Lagoa Nova não tinha, mas nas cidades vizinhas havia homens muito hábeis que trabalhavam o ferro e o aço em quase tudo que fosse necessário no meio rural. Quanto a outros produtos indispensáveis vendidos na feira e que não podiam faltar em toda região serrana e todas de fabricação caseira, vejamos em primeiro lugar a louça de barro que era indispensável, como o pote, desde a jarra (pote grande) até o mínimo de coagular o leite da cabra. Havia também os vasilhames que movimentasse com líquido até os de cozer e servir os alimentos. Da folha ou palma de carnaúba, a esteira que na época tinha grande utilidade, a qual servia para forrar o chão no lugar da mesa para as refeições, para fechar as portas internas das dependências das casas, forrar a cama, cobrir alguns pertences em épocas chuvosas e também muito usadas pelos tropeiros como proteção das cargas, eram também vendidos na feira o chapéu a sacola e outros pertences. Eram confeccionados com o cipó: caçuá (jacá), o cesto ou o balaio, desde o grande até o pequeno, portas, estrado de cama etc. excetuando-se as portas e o estrado que eram confeccionados em casa o restante se comprava na feira. Para os habitantes serranos a feira na Comunidade Panelas trouxe um grande benefício, principalmente para aqueles que não tinham como chegar até as cidades de Currais Novos ou Santana do Matos, para efetuarem suas compras. Com a feira tudo facilitou, todos podiam ir até lá fazer suas compras ou vender seus produtos. Me informou Francisco Belmiro natural da Fazenda Curralinho, Município de Santana do Matos e conhecedor de toda aquela região que, em 1909, Manoel Joaquim que também nasceu ali e trabalhava com o senhor Antônio Assunção, proprietário de muitas terras mas bens e dinheiro não tinha. Esse era marchante, abatia gado e vendia em Santana. Com a feira criada em Panelas, fazia a mesma coisa; matava um boi, preparava a carne e vendia no domingo, dia da feira. Levava a carga no lombo de uma vaca, pois não tinha outro transporte. Manoel Joaquim que era seu portador caminhava serra acima tangendo a vaca com a carga e seu Tota o acompanhava montado em uma égua (besta), assim chegava a feira aonde vendia a mercadoria. Francisco Belmiro era uma dessas pessoas que guardava na memória muitas histórias como essas do seu tempo, como também dos seus antepassados, o que eu considero muito importante. Nos dias de feira era também dias de encontros com os amigos para conversar ou tratar de negócios; nos dias úteis da semana o recém povoado era sempre frequentado por fregueses que iam fazer pequenas compras ou vender nos armazéns.

Desses estabelecimentos destacamos apenas dois mais importantes: O armazém de Chico Fernandes e a venda de Joaquina de Pedro Barros, esses estavam em atividade diariamente prontos para atenderem aos fregueses, mas, havia outros de menor porte: botequins que abriam as portas quase sempre à noitinha, fazendo jogos, vendendo cachaça e outras pequenas mercadorias, eram os que moravam nas regiões mais próximos, como também trabalhadores na extração de borracha, batendo papo e comentando os acontecimentos mais recentes, ou mesmo recordando histórias de antepassados. Assim a feira além de bem servir a população em suas maiores necessidades, dava também expansão em suas vidas solitárias.

Estava agora iniciando o caminho para possíveis obtenções de melhoramentos para o povo serrano. Mas a discórdia entre as famílias Faustinos e Tavares/Catarinos continuava. Com a criação da feira ia se formando um pequeno povoado e era inevitável os encontros entre as partes discordantes, a rixa continuava crescente. Até que um dia juntaram-se os oito irmãos filhos de João velho e dois trabalhadores, inclusive Irene e entraram em luta. Dez homens do lado dos Faustinos, contra dez do lado dos Tavares e Catarinos; dessa vez morreu Galdino Tavares, ficaram baleados José Tavares e Manoel Catarino que foi baleado levemente da parte dos Faustinos. Irene perdeu um olho e foi também baleado um dos trabalhadores.

Com as providências tomadas pelas autoridades, punindo os culpados conseguiram acalmar a situação sem conseguir prejudicar a feira, mesmo assim, muitos feirantes temiam que acontecessem casos dessa natureza em um dia de feira e deixasse muitas pessoas prejudicadas, tanto que a feira continuou comodamente, houve uma trégua entres os rixosos. Mas, como naquela região só existia uma fonte d’água, onde todo o pessoal se abastecia e como o minador era muito lento, isto é pouca água, o pessoal formava fila, aguardando a vez de cada um.

Aconteceu que um dia Macionila, mulher de Manoel Tavares, foi ao olho d’água dar de beber aos animais e também levar água, e como o minador estava fraco ela tinha que esperar um pouco de tempo até que aumentasse a quantidade que ela precisava para encher as vasilhas. Foi nessa ocasião que chegou Manoel Catarino que também ia dar de beber a uma vaca, e lá encontrou Macionila que esperava a água aumentar para poder se abastecer. Mas, Manoel Catarino queria dar de beber a vaca dele antes que Macionila, como ela não concordou Manoel Catarino sacou do facão e castigou a Macionila. Ela ao voltar para casa, encontrou Cipriano Grande, um seu amigo e relatou-lhe o ocorrido. Ele ouviu o depoimento e se manteve quieto. Manoel Catarino temendo a Cipriano Grande, chegou em casa armou-se e foi até ao Povoado. Lá chegando encontrou Cipriano que fazia um cigarro tranquilamente, foi quando Manoel Catarino o surpreendeu e falou para ele: – Vire-se cabra! E atirou em Cipriano, que tombou sem vida. Manoel Catarino voltou a sua residência, guardou o animal de montaria, municiou-se e retornou ao local onde fizera a vítima. Encontrou o morto e também o Chico, irmão do referido que chegara ao local. Os dois entraram em luta, o Chico ficou muito ferido mais recuperou com o passar do tempo, pois naquela época não havia atendimento médico nem mesmo em Currais Novos ou Santana do Matos. E Manoel Catarino depois aquele debate fugiu e chegou até a residência de Antônio Lopes de Macedo, o Lopes, pedindo-lhe segurança.

O Lopes que era muito bem relacionado com a sociedade santanense entrou em entendimento com esses e entregou Manoel Catarina a justiça do referido Município o qual foi recolhido a cadeia -pública, que depois de cumprir a sentença cabível foi absorvido e voltou para a sua casa e ficou com os seus familiares, onde morreu.

Mesmo com a prisão de Manoel Catarina a rivalidade aumentou, pois eram duas partes rivais Faustino e Tavares/Catarinos, a partir da morte de Cipriano passou a ser três partes em contradição. E qual seria a solução das autoridades no sentido de resolver essa desavença? A solução encontrada foi eliminar a feira, mesmo contrariando grande parte da população, mas, foi o meio encontrado. Não era possível manter ali um destacamento policial, dadas às inconveniências locais e o meio ambiental. Por tudo isso, a solução mais rápida e eficaz foi mesmo extinguir a feira.

E AGORA, QUAL A SOLUÇÃO?

Com a suspensão da feira não só essa como a população circunvizinha ficou prejudicada especialmente na parte comercial, a tendência era voltar ao sistema anterior. Os pequenos comerciantes que haviam surgido entraram em decadência e recorreram a outras atividades. A extração da borracha também entrou em decadência, tanto pela desvalorização do produto, tanto pela qualidade e quantidade extraída, pois as árvores produtoras do látex foram tornando-se fracas e se esgotando. Tudo concorria para uma inevitável falência.

Mas, a população serrana sentia-se melhor preparada, pois muitos já tinham animais de cargas, podendo fazer pequenas viagens alcançando as feiras mais próximas. Poucos anos depois em Lagoa Nova, começou a surgir um pequeno comércio.

O primeiro foi Manoel Pedro que no início da década de 1920, iniciou também um pequeno comércio com pouquíssimas mercadorias. Mas, antes Joaquim Félix já vendia querosene, sabão, fósforo e rapadura e comprava algodão na época da safra que também era muito pouco. E Alexandrina mulher de Ezequiel Serafim de Souza, vendia aguardente. Com o novo comércio de Manoel Pedro a tendência era para a melhor, mas este logo mudou de residência e foi morar em uma fazenda no município Santana do Matos. Logo um senhor paraibano de nome José de Lima, chegou a Lagoa Nova e instalou-se com uma vendolasinha com um sortimento razoável e como ele gostava da agricultura dedicou-se mais ao ramo e passou o comércio para o neto, Manoel Roseno de Lima. Este continuou movimentando o pequeno comércio. Como o rapaz era bastante esforçado, um senhor de Cerro Corá, Oton Osório que era comerciante, entendeu de ajudar Manoel Roseno de Lima (Manoel Lima), construiu um ponto comercial bem arrumado com balcão e prateleiras e forneceu bastante em mercadorias, parte em tecido, o que deu a Lagoa Nova, novos rumos e novos melhoramentos.

Manoel Lima desenvolveu comércio por alguns anos, casou­se mais não teve sorte, seus avós morreram e pouco tempo depois ele separou-se da mulher, acabou com o comércio e mudou-se para a cidade de Mossoró/RN.

Em 1925, o senhor Manoel Medeiros, veio morar em Lagoa Nova. Manoel Medeiros era casado com Dona Maria Cota, mulher trabalhadora e ativa, organizou um pequeno comércio, trabalhava na agricultura e fazia chinelo e outros artefatos de menos importância. Dina, uma filha de Dona Cota, separada do marido também, exercia um pequeno comércio. Em 1928 Dina instalou uma padariazinha muito simples e como era só, não tinha ajuda, não podia continuar com a panificação passando-a para Dona Cota, sua mãe, que manteve a indústria até 1935.

Nesse mesmo período o senhor Manoel Barbosa de Medeiros, primeiro padeiro, montou uma padaria bem equipada, oferecendo aos consumidores produtos qualificados, bem aceitos comercialmente. Manoel Barbosa exerceu a função até 1953, quando mudou de residência para o estado do Maranhão. A padaria passou a outro proprietário, José Luiz Victor, que edificou um local bem estruturado especialmente para a panificação, colocou operários competentes, conseguiu produtos de excelente qualidade e intitulou a indústria de: Panificadora São Francisco, a qual funcionou em seu poder até 1978, passando a indústria a Genival Virgínio de Araújo, proprietário até os dias atuais.

João Bezerra Galvão, nasceu no Sítio Areia, filho de Manoel Lopes Galvão (Seu Nelo}. Este era dono de uma faixa de terra em Lagoa Nova e nesta, uma casa de fabricar farinha. No início da década de 1920, vieram os filhos de seu Nelo tomar conta do terreno e nele trabalharam no cultivo da lavoura. Em princípio eram três: Bernardino, Francisco e João, todos solteiros, os rapazes fizeram boas amizades com os moradores da região que já conheciam o pai deles (Seu Nelo}. Estes logo se familiarizaram com os vizinhos mais próximos: Joaquim Félix, Ezequiel Serafim e João Esteves, todos residentes a margem da lagoa. Na verdade esses senhores eram todos amigos do pai deles. Francisco, o Chico Lopes, ficou pouco tempo com os irmãos e voltou para o Sítio do pai, ficando apenas Bernardino e João, ambos bastante explosivos, neurastênicos, mas, isso nada impedia no relacionamento com os vizinhos, pelo contrário, crescia mais a popularidade, pois eram bons rapazes. Depois veio outro irmão José Lopes e continuaram trabalharam em conjunto. Foi quando Bernardino casou-se e foi morar em um outro terreno, depois José casou-se e o João permaneceu solteiro.

O ano de 1 930 foi de grande estiagem, as águas secaram, foi uma seca tremenda. Bernardino voltou para Lagoa Nova, construiu uma casa e abriu um pequeno comércio. Poço cavado em 1916. Com a cooperação dos moradores da região, na propriedade de José Campos, ao norte do poço cavado, a uns duzentos metros da intendência de Currais Novos/RN, perfurou um poço tubular equipado com um moinho catavento, conseguindo água muito insalubre, mas, era desta que se abastecia grande parte da população serrana. Era também nesse ponto onde se convergiam as estradas para diversas regiões da chapada da serra e municípios vizinhos, como já sabemos em princípio a serra pertencia a dois municípios: Currais Novos e Santana do Matos, sendo que Lagoa Nova, era parte integrante de Currais Novos. Foi nessa área que Bernardino instalou seu comercio e também a residência, onde trabalhou até 1930. João Lopes continuou solteiro, morando na mesma casa. Em 1930, como as chuvas não caíram, a lagoa secou o poço olho d’água jorrava pouquíssima água, o

poço de catavento tinha água bastante t mais só servia para os animais. Isso mesmo por não haver outro o povo ficou apavorado. 1

João Bezerra entendeu de cavar um poço em sua propriedade no centro da lagoa, na esperança de conseguir água. Convidou o pessoal, juntou os vizinhos e amigos e começaram o trabalho, em poucos dias cavaram uma cisterna, com aproximadamente 2,50m (dois metros e meio) de diâmetro por 4,00m (quatro metros) de fundura. A água encontrada era pouca, e minava nas laterais da cisterna lentamente, dando impressão de um filtro coletor, mas valeu a pena, essa cisterna muito contribuiu abastecendo os habitantes da região, durante os três anos de seca 1930-1933. Com essa água mesmo pouca, o pessoal sentiu um grande alívio, satisfeito e gratificado pelo ato generoso de João Bezerra Galvão. Foi esse o primeiro passo no progresso de Lagoa Nova.

A PRIMEIRA MISSA

Nesse mesmo tempo surgiu a ideia de algo mais assistencial em benefício não só de Lagoa Nova, mas de toda região serrana. Como a população era totalmente católica acharam por bem que fosse rezada uma missa agradecendo a Deus em primeiro lugar e a ele pedindo que nos desse novos rumos, novas luzes para alcançarmos meios de resolver as carências imediatas do povo de Lagoa Nova.

Consultaram o plano a João Bezerra e pediram-lhe o apoio. O pedido foi aceito, pois o mesmo também tinha interesse no assunto. Os moradores confiavam plenamente na pessoa de João uma vez que além de bem relacionado com a classe social de Currais Novos, era também parente. Tinha, portanto acesso aos apelos em favor de Lagoa Nova. Tudo combinado iniciou-se os preparativos. O local escolhido para o ato religioso foi à residência de Joaquim Félix, tanto pela posição adequada, quanto pela preferência que sempre teve de pousada dos que por li passavam em trânsito. A casa de Joaquim Félix sempre foi acolhedora de todos os que a procuravam, inclusive os padres quando vinham celebrar casamentos ou confessar enfermos, comerciantes ambulantes e tantos outros. Por tudo isso era o local mais indicado.

Estávamos já no segundo ano de estiagem, a situação financeira era sufocante, ainda mais com a conhecida revolução de 1930, que gerou discórdias indesejáveis. Mesmo assim o povo serrano não se dobrava diante de tais consequências, queriam mesmo é que fosse realizado o ato litúrgico acima de tudo. Foi quando o senhor Manoel Luiz de Maria, residente no Sítio Barra D’ areia, veio morar em Lagoa Nova. Era ele muito religioso, um católico fervoroso e gozava da amizade dos Currais-novenses, seria a pessoa mais indicada para cuidar na obtenção de permissão para o determinado fim. Manoel Luiz aceitou o apelo e logo iniciou o trabalho, foi a Currais Novos acertar tudo com o vigário da paróquia e marcaram o dia para a celebração. Manoel Luiz encarregou-se também de fazer os avisos. Não só na chapada serrana, mas, também nas cidades vizinhas, Currais Novos em primeiro lugar, Santana do Matos, Cerro Corá e outras fazendas e sítios e a população em geral que quisesse comparecer.

E no dia 28 de outubro de 1931 (sábado), pela manhã cedo, Manoel Luiz desceu a Serra foi até Currais Novos, trouxe o padre e mais pessoas. E na tarde desse mesmo dia, chegou de volta à casa de Joaquim Félix, onde muita gente já o esperava com a finalidade de receber a comitiva. O dia seguinte começou chegando mais gente, como a casa não tinha cômodo para todos, o povo ia se protegendo na sombra da velha. Baraúna. Que distava apenas nove metros -da porta principal da casa. Eu ouvi do Padre esta frase: – ” Não vejo muitas moradas, mas vejo muita gente”.

Era domingo, dia 29 de outubro de 1931, às 1O horas quando foi celebrada a primeira missa em Lagoa Nova, na Serra de Santana, município de Currais Novos, Rio Grande do Norte. O ato foi ministrado elo então vigário Pe. Omar Bezerra Cascudo. Local: Residência de Joaquim Félix Pequeno. Promoção: João Bezerra Galvão ” João Lopes”. Organização: Manoel Luiz de Maria. Apoio: Comunidade de Lagoa Nova/RN.

Nessa ocasião foram celebrados 02 casamentos e 40 batizados. Casaram-se Pedro Miguel da Silva com Maria Valentina da Conceição e Francisco Alves dos Santos com Francisca Alves. Por ocasião do ato litúrgico, compareceu muita gente, não só a comunidade que fora convidada através de escritos ou mesmo verbalmente, mas também os espontâneos. Isso porque na época não havia outro meio de divulgação.

Estiveram presentes: Capitão Antônio Florêncio, Francisco Mentor, Otoniel Lopes, Sérvulo Pereira, Jéferson Durval Bezerra e outros. Quanto aos residentes de Lagoa Nova e adjacências, citamos entre outros os senhores: Bernardino Bezerra, Ezequiel Serafim de Souza, José Ribeiro de Carvalho, Manoel Cândido de Macedo, Manoel Antônio de Macedo, Antônio Garcia de Medeiros e Albino Avelino de Souza. Esse último foi o construtor da primeira capela na povoação em 1933, através de doações de pessoas da comunidade. Alguns anos depois, já não comportando o número de fiéis, a capela foi demolida e construída no mesmo local a atual igreja de São Francisco de Assis, Padroeiro de Lagoa Nova. A atual igreja já passou por duas ampliações: A primeira na década de 80, pelo Pe. Ônio Caldas de Amorim e a segunda em 2001 pelo Pe. Alcivan Tadeus Gomes de Araújo.

Foi o segundo passo para o bom desenvolvimento de Lagoa Nova, com essas conquistas obtidas, os moradores serranos já se sentiam bastantes satisfeitos, mas, não era ainda o suficiente. Precisavam de algo mais que desse sustentação as conquistas já obtidas e solidificasse a base para a obtenção de apoio e participação de outros municípios, no sentido de conseguir recursos para me1t10ramentos na agricultura, fonte de renda e de subsistência da população serrana. Pois a Serra de Santana era e ainda é sem dúvida um dos setores mais produtivos da região seridoense. Por tudo isso seria necessário a criação de uma feira livre, o meio viável para reivindicações em prol dos serranos e o local seria Lagoa Nova que apresentava importante iniciativa. Com a feira funcionando, abriria novos caminhos e novas atuações. Essa sugestão seria acatada por todos, foi quando João Bezerra partiu para a terceira etapa da luta, visando atender o apelo daquela gente que na pessoa dele esperava alcançar seus anseios.

A FEIRA

A feira na Serra de Santana foi sempre um anseio dos mo­radores da região, mesmo na época que moravam poucas famílias. Talvez isso acontecesse em função da inviabilidade de comunicação com o comércio distante e poucos dispunham de animais suficientes para o transporte. Na primeira década de 1900, na época da exploração da borracha de maniçoba, formaram uma feira no sítio panelas, no município de Santana. do Matos. Esta por motivo superior não foi possível continuar. Em 1933 ressurgiu a ideia, dessa vez em Lagoa Nova. E para dar seguimento a essa atividade o povo deu preferência a João Bezerra, que já dera prova de capacidade e eficiência em vezes anteriores.

Este entrou em ação juntamente com o seu irmão Bernardino, que no momento era um pequeno comerciante, iniciaram as propagandas verbalmente e por meio de boletins. O Povo movido pelo interesse que tinha e pela força de vontade, cooperou intensificando a divulgação, o que deu excelente resultado. Tomaram como exemplo o mesmo que fora usado para a celebração da missa. A comunidade local e circunvizinha se movimentou ativamente na realização do evento, era preciso um local apropriado para tal. Houve sugestão que a feira fosse de preferência na frente da residência de João Bezerra, pois o local oferecia um dos pontos mais favoráveis. Bernardino Bezerra, irmão de João, não concordou com os demais e preferiu que o ideal fosse em frente a sua residência, que era ponto comercial, como também pelo abastecimento da água onde todo o pessoal da região se abastecia e também por ser ponto de junção das três estradas principais para Currais Novos, Cerro Cora e Santana do Matos. Mas a sua sugestão não prevaleceu, por motivo desse local ser muito baixo e arenoso, correndo perigo de que em ano chuvoso inundasse como já acontecera anteriormente. A terceira sugestão, que a feira fosse realizada em frente às casas de Francisco Aprígio, Zé Guedes e Cândido Pedro, agradou aos interesses de todos que aprovaram unanemente, com exceção de Seu Bernardino que nesse momento afastou-se da sociedade.

João Bezerra não desistiu, auxiliado por amigos continuou persistente. Foi quando Laurentino Alves, oportunamente engajou-se na luta ao lado de João Bezerra notadamente com a intenção de auxiliá-lo, o que muito contribuiu na execução das primeiras casas no povoado. Alinhando as ruas, pondo-as em ordem, como também nas primeiras feiras, ele foi um autêntico auxiliar nas organizações.

Depois de tudo combinado, cada interessado ia preparando o local onde pudesse se instalar (falando de feirante), prepararam o terreno, fizeram barracas individuais preparando coberturas para proteger as mercadorias mais sensíveis e abrigar parte dos vendedores, especialmente os que chegassem sem ter lugar reservado. Laurentino Alves se encarregou dessa tarefa.

E como sempre em todas as organizações sociais há um certo pessimismo. Em Lagoa Nova, como não podia ficar isenta, havia pessoas que mesmo vendo o esforço e a boa vontade daquela gente não dava crédito, e comentava: -Como pode formar uma feira aqui diante de uma seca dessa? Falava outro: -É impossível nem água tem! E os mais exaltados completavam:-Eu só acredito vendo. Tomáz Pereira. de Araújo comerciante em Cerro Cora falou para João Bezerra: Faça a feira, se não houver comprador para toda a mercadoria eu compro o que sobrar. Seu Tomáz veio assistir a feira, mas não comprou nada, pois nada sobrou. Toda a mercadoria foi vendida. A Feira começou às 8:00 h., no sábado, 02 de setembro de 1933. Terminou às 16:00 h., tranquilamente até a presente data de 2005.

A feira de Lagoa Nova nunca foi interrompida, há não ser por determinação administrativa, por motivo superior, acontecer na sexta-feira. Por ocasião da primeira feira vieram muita gente, feirantes e observadores e pessoas com a finalidade de assistir e ver também se havia condição de instalarem-se comercialmente. Entre esses que estava o senhor João Marinho Dantas, que logo na primeira feira abriu um mini restaurante servindo refeição aos que interessassem. Quanto a outros apenas sondaram o ambiente. Houve várias feiras nesse mesmo local que não oferecia espaço necessário para permanecer a feira e alocar ponto comercial; Apesar de ali existir quatro residências local era inadequado para o alinhamento de ruas. Então foi de preferência o terreno que estava em frente às casas de João Bezerra e Ezequiel Serafim de Souza. Terreno espaçoso e desimpedido. Neste foram logo desmatando e reservando lugares para a construção de casas. Laurentino Alves encarregou-se desse trabalho, com uma régua de cem palmos mediu os terrenos pondo em ordem os alinhamentos e reservou dois terrenos, um para o mercado e o outro para a igreja. Ambas essas construções tiveram início nesse mesmo ano de 1933.

Laurentino Alves fez um simples rascunho (projeto) da construção do mercado o qual dispunha de duas filas de cômodos em sentido paralelo, entre esses um espaço livre para a feira. Os primeiros locais construídos pertenciam aos senhores Tomáz Pereira de Araújo e Othon Osório, isso na primeira linha. Na segunda linha, foram construídos os estabelecimentos comerciais de Juventino Pereira e Albino Avelino. Os restantes cômodos que eram quatorze nas duas filas foram construídos por outros interessados que realizaram os trabalhos das construções nos primeiros meses de 1934.

À medida que iam terminando os cômodos iam também os pondo em funcionamento. Os três primeiros Tomáz Pereira de Araújo, Othon Osório e Juventino Pereira, com tecidos e os outros com comércios variados, inclusive uma barbearia. Então foi construído o mercado em Lagoa Nova, de acordo com o esquema elaborado por Laurentino Alves, com dezoito locais dispostos em duas linhas e entre elas o espaço destinado à feira. Ainda hoje conservado pelos atuais administradores. Os comerciantes que vieram de Cerro Cora e Currais Novos, sabiam que para eles o comércio em Lagoa Nova não era compensador mais quiseram ajudar fazendo com que outros tomassem interesse e impulsionassem o desenvolvimento.

Assim eles mantiveram o comércio até que tudo se equilibrasse. Tomáz Pereira que tinha bastante experiência no ramo comercial viu que era tempo de afastar-se de Lagoa Nova comercialmente, mas deixou em seu lugar o filho Sérvulo Pereira, com um armazém comprando algodão, cereais, couro e pele. Depois esse tipo de comércio passou para João Marinho Dantas. Quanto aos outros Juventino Pereira, Manoel Osório e Manoel Lino que na época eram também comerciantes foram vendendo os locais para outros e o comércio continuou sempre crescente. O ato nº 1 O, de autoria do então Prefeito de Currais Novos Dr. Neófito Pinheiro Galvão, edital nº 02, de 22 de agosto de 1934, criou oficialmente no povoado de Lagoa Nova a Feira Livre, realizada aos sábados.

Em 1934, chegou a Lagoa Nova, o senhor José Luiz Victor, instalou uma casa comercial com estivas, bebidas e um pouco de ferragens. Depois associando-se ao irmão João Luiz Victor, ampliaram o comércio com tecido, farmácia e uma panificação e juntos trabalharam comercialmente quarenta e quatro anos, quando deixaram a função.

Nesse mesmo local funciona um restaurante, cujo proprietário é Honorato José Victor, filho de José Luiz Victor que oferece ao público um confortável ambiente com um bom atendimento, inclusive com pizzas, refrigerantes e outros. Mas José Luiz Victor, não exercia somente o comércio que era sua principal profissão. Como um religioso ele se encarregava da igreja no zelo e em tudo que lhe competia, o que fazia com máximo empenho e dedicação. Quando vinham padres ou mesmo outros religiosos na igreja era na residência dele que permaneciam até que resolvesse tudo o que pretendiam. No estabelecimento comercial ele atendia a qualquer hora, vendia remédios, fazia curativos e aplicava injeções. Muitas vezes atendia a domicílio, dependia da condição do paciente. Substituía o delegado na falta deste, os casos simples ele resolvia, os mais graves ele encaminhava a delegacia municipal em Currais Novos. Foi também o primeiro professor público em Lagoa Nova, durante dez anos.

Podemos afirmar que José Luiz Victor foi um grande contribuinte no desenvolvimento de Lagoa Nova, como povoação, vila e cidade, juntamente com seu irmão João Luiz Victor que foi o primeiro e terceiro prefeito eleito do Município de Lagoa Nova.

João Marinho Dantas chegou a Lagoa Nova com a primeira feira, montou uma mini lanchonete na casa de Zé Guedes (Jéferson Durval Bezerra) seu cunhado. O primeiro delegado civil foi Anulino Cabral, vindo para Lagoa Nova, por intermédio do senhor João Marinho Dantas. Seu João muito vivo, foi conseguindo fazer boas amizades com o pessoal e ao lado do armazém de Tomáz Pereira ele construiu uma casa para morar. Com a desistência comercial dos Pereiras, João Marinho assumiu a função, abriu um comércio de compra e venda, comprava além dos produtos da lavoura os produtos extrativos como lenha, carvão, varas, estacas e muitos outros. Ele costumava falar: – “A vida desse povo depende desses produtos”.

A década de 1930 a 1939, foi quase toda de poucas chuvas, a produção agrícola muito pouca, muitas pessoas por não haver trabalho se ocupavam na casa da colombita, berilo e outros encontrados na fralda da serra, nos despenhadeiros, ou concentrados nos leitos dos córregos ou riachos. João Marinho comprava o produto e vendia aos mesmos a mercadoria que eles necessitavam. Fornecia ferramentas aqueles que não tinham condições de comprar, como picaretas, enxadas, pá, até mesmo o material explosivo, necessário na extração mineral. Com esse trabalho ele dava emprego ao povo e contribuía com o comércio local.

Além do armazém ele instalou uma mercearia com a finalidade de melhor atender sua freguesia, como também um açougue, mais também comprava e vendia gado vivo. Finalmente João Marinho foi um homem que muito contribuiu para o desenvolvimento de Lagoa Nova. Ele não era muito tendente para a agricultura, mesmo assim, incentivava os agricultores para outros plantios que não eram cultivados na Serra de Santana, como sejam: a mamona e o sisal (agave). Ele aconselhava que plantassem mesmo de modo experimental. Em sua propriedade João Marinho plantava até mesmo árvores sem visão de lucro.

João Marinho chegou a Lagoa Nova em 1932, instalando um pequeno comércio, atividade sempre crescente. Perseverante e sem egoísmo, permaneceu trabalhando e morando em Lagoa Nova durante treze anos. Em 1945 mudou-se de residência para Currais Novos. Com muita justiça, a administração municipal de Lagoa Nova, a ele dedicou uma pequena praça em sua homenagem, é a Praça João Marinho Dantas (Praça da Matriz).

Entre os vários comerciantes que contribuíram na criação e desenvolvimento de Lagoa Nova, merecem maior destaque: Bernardino Bezerra de Sena que antes de haver a feira já exercia o ramo comercial. João Marinho Dantas que começou com a primeira feira e trabalhou treze anos no setor comercial e social e José Luiz Victor que prestou os maiores trabalhos em bem servir a região, em um período de quatro décadas. Já velho, exausto pelo trabalho afastou-se, morreu aos setenta e seis anos de idade. Deixou onze filhos, sendo oito do sexo masculino e três do sexo feminino. Desses, dois filhos homens em parte assemelharam-se ao pai, são eles Serafim de Medeiros Victor, como religioso. E Honorato José Victor, como comerciante. E como educadora está em seu lugar Ana Maria Miguel, sua sobrinha. Quanto aos demais exercem funções diferentes.

Houve outros nomes que muito contribuíram no comércio e campo agrícola desse município. Entre eles. citamos José Ferreira da Costa e Tomáz Silveira. Este último, era proprietário no Sítio Baixa Grande e como prefeito de Currais Novos, antes da emancipação de Lagoa Nova, prestou serviços comerciais e administrativos em favor dos serranos, principalmente dos lagoanovenses.

José Geraldo da Silva, esforçado comerciante nessa cidade bem como em toda a região serrana e no campo agrícola, foi bastante persistente. Mesmo enfrentando as grandes estiagens se mantinha firme, auxiliando os que o procuravam, especialmente na época do plantio e zelo da lavoura. Como é do conhecimento de todos a economia serrana depende da agricultura, especialmente do cultivo da mandioca que continua ativa atualmente. Das plantas temporárias na região é a mais resistente nas frequentes grandes estiagens. A cada dez anos dois abundantes e oito razoáveis ou secos, a mandioca é a salvação do homem e seus animais.

Antes de entrarmos em detalhes mais definidos no desenvolvimento de Lagoa Nova, vamos tomar conhecimento do maior plantador de mandioca na região, em que hoje está encravada a cidade de Lagoa Nova: Antônio Lopes de Macedo.

Antônio Lopes de Macedo, conhecido como o Lopes, morava no Sítio Saco da Areia, na nascente de um riozinho denominado Rio do Saco, afluente do Rio Areia. O Lopes era proprietário e residente nesse local, mas também possuía uma parte de terra na data Clavinote, próxima a Lagoa Nova. Nesta construiu uma casa destinada à fabricação de farinha, conjugada com uma residencial, aonde veio morar.

Foi o maior plantador de mandioca na época da última década de 1800 e as duas primeiras de 1900. Fazia farinha o ano todo, só parava na época do plantio. A comercializava o produto em sua própria casa. Vendia a mercadoria aos tropeiros vindos de várias regiões seridoenses, especialmente da região da cidade do Assú. Lidava com muitos trabalhadores, pois naquele tempo todo o trabalho da lavoura era braçal, tornando-se assim lento e dispendioso. O Lopes era também muito bem relacionado com as pessoas do seu município Currais Novos e de Santana do Matos.

Ele construiu a casa a que nos referimos caprichosamente, não de alvenaria, mas, de taipa bem trabalhada e com madeira especial de aroeira. O madeiramento da cobertura era também todo de aroeira trabalhada a enxó. A parte residencial tinha um cômodo elevado denominado sótão. A área coberta era presumidamente duzentos metros quadrados. Na época era a casa modelo na região serrana. Construiu um reservatório coletor de água das chuvas com tijolos e cimento. Foi essa a primeira construção feita na serra com a finalidade de armazenar as águas das chuvas.

O Lopes era também muito religioso, construiu uma capela dedicada a Nossa senhora da Conceição, na qual fazia suas orações. Foi sempre muito previdente e progressista. Morreu em 1926. Seus descendentes não conservaram o patrimônio por ele deixado, ao contrário, destruíram. Esse descaso me impede de saber (conhecer) com exatidão os feitos de nossos antepassados, não só de Antônio Lopes de Macedo, mas, de tantos que aqui trabalharam e morreram. Seus atos memoriais são quase todos esquecidos no decorrer do tempo, pois nada deixaram escrito. Seus descendentes eram todos analfabetos e não tiveram o cuidado nem mesmo de memorizar as · coisas importantes que passaram. Sabemos popularmente que o Antônio Lopes de Macedo, O Lopes, foi em seu tempo homem dedicado a agricultura, de preferência ao plantio da mandioca, tornando-se o maior plantador dessa cultura na Serra de Santana, especialmente em Lagoa Nova.

LAGOA NOVA DEPENDENTE

De 1948 a 1953 com a administração do Prefeito de Currais Novos Dr. Sílvio Bezerra de Melo, a Vila de lagoa Nova teve um avanço considerável dado ao empenho tomado por ele.

Antes de 1933 a 1948, toda renda gerada pelos habitantes da área serrana pertencia ao Município de Currais Novos. A vila de Lagoa Nova não participava desses recursos originados de suas atividades. De 1933 a 1963, decorreram trinta anos de árduo trabalho do povo lagoanovense em busca de crescimento e desenvolvimento do povoado, que com muito esforço se tornou distrito e depois vila Durante. Esse período Currais Novos, teve nada menos do que 16 governantes entre prefeitos e substitutos. De todos esses administradores o que tomou maior interesse por Lagoa Nova, foi Dr. Sílvio Bezerra de Melo, que logo ao iniciar sua administração, iniciou também a restauração da antiga estrada de rodagem sabóia, de Currais Novos a Lagoa Nova e daí a Cerro Corá. Abriu outra estrada de Lagoa Nova passando pelo Povoado Manoel Domingos, chegando ao Sítio Barro Branco divisa com o Município de São Vicente. Acresceu o mercado público e construiu uma parte com área coberta e nesta uma cisterna para armazenar a água e distribuí-la· a população urbana. Instalou um telefone, trouxe um motor gerador (caterpillar) e iluminou as ruas. Construiu um grupo escolar e aumentou o número de professores, além de outros benefícios de menor dimensão mais de grande utilidade.

Acima de tudo isso ele presenteou Lagoa Nova com uma planta cadastral (projeto), destinada à edificação da cidade cujo traçado vem sendo obedecido por todos os prefeitos, exceto o Prefeito Genilson Pinheiro Borges, que cometeu uma pequena falha. As primeiras ruas que eram ainda iniciantes não tinham alinhamento perfeito, foi necessário demolir algumas casas e pô-las conforme a planta cadastral que é traçada em sentido radial. Inicia-se com uma circunferência e um ponto central neste fixam-se duas linhas perpendiculares dividindo o círculo em quatro ângulos retos e direcionando quatro avenidas principais. Com mais duas linhas divide os quatros ângulos em oito ângulos agudos e formam-se mais quatro avenidas secundárias, formando assim oito avenidas, sendo quatro principais e quatro secundárias. As primeiras medem 55.00 m (cinquenta e cinco) metros de largura e as segundas 30.00 m (trinta metros). Inicia-se com oito quadras poligonais, dando sequência a 8 oito filas com áreas e formatos com a mesma igualdade e medida. E nas laterais (costelas) formam-se duas ruas, um cada lado, dando ao observador a impressão de que a planta da cidade de Lagoa Nova é semelhante a uma sombrinha aberta.

Com esses serviços prestados pelo Prefeito Dr. Sílvio Bezerra de Melo, abriram-se novos segmentos. para o crescimento e desenvolvimento de Lagoa Nova.

LAGOA NOVA INDEPENDENTE

Lagoa Nova foi elevada a condição de município autônomo pela Lei Estadual nº 2777, de 1O de maio de 196.2; instalado a 02 de janeiro de 1963, com posse do primeiro administrador nomeado pelo Governador do Estado, o senhor Francisco Jerônimo de Medeiros (mandato de 02 de janeiro de 1963 a 31 de janeiro de 1964).

Com a emancipação do Município de Lagoa Nova, inicia-se destemidamente o labor de uma nova vivência. Mesmo enfrentando consequências indesejáveis, a população integrou-se totalmente no objetivo tão desejado em prol dos habitantes humildes e carentes.

Atualmente os lagoanovenses já se sentem recompensados pelos seus esforços sempre ativos e contínuos, rumo a um futuro ordenado e progressista.

As primeiras atuações foram no comércio e no cultivo da terra. Cultivando, plantando e acrescendo as áreas, em princípio por meio de tração animal. Depois a prefeitura conseguiu um trator, porém este não era suficiente, dessa forma os agricultores contratavam tratores particulares. Com esse trabalho a produção aumentou bastante e o comércio evoluiu-se. E como o pessoal que vivia em função da agricultura trabalhava em terra alugada ou eram mini fundistas, dificultava a concessão de financiamento para melhor desenvolver suas atividades. Ocorria que o produto se tornava mediano e no mercado não era aceito como produto qualificado. E ainda nos anos de boa produção, na época da colheita, quando o agricultor precisava saldar seus débitos e não tinha como armazenar seus produtos. Mesmo enfrentando todo obstáculo o trabalhador serrano se mantinha persistente e pouco a pouco conseguiam meios mais acessíveis à sobrevivência.

O Município de Lagoa Nova tem uma área territorial pequena, bem como a renda per capta. Mas possui uma população grande na coragem, na disposição para o trabalho na esperança de alcançar no futuro uma vida mais digna. O que está faltando é a ação da administração em fazer o que natureza deixou para que esses fizessem, especialmente uma irrigação apropriada e constante em toda a área serrana. Com água e um sistema de trabalho bem aperfeiçoado, com sementes selecionadas, bons fertilizantes o solo serrano produzirá além dos cultives já usados, outros ainda não cultivados, que podem ser ativados. Alguns já experimentados como frutíferos e hortigranjeiros.

Nos anos chuvosos, podem-se observar nos fundos dos quintais em pequenas hortas algumas plantas bem desenvolvidas com frutos razoáveis e bem saborosos. Entre estes a banana, a goiaba e o mamão. Entre as verduras destaco o quiabo, o coentro, o pimentão, a alface, entre outros. Dando a entender que havendo água potável e trato adequado, na chapada serrana poderão ser cultivados vários tipos de plantações, que além de enriquecer a mesa dos habitantes, poderá gerar renda.

Como os leitores vêm observando através do exposto, os lagoanovenses foram sempre pessoas humildes, honestas, tímidas e sem instrução. Desconhecedores do sistema usado pela alta cultura politécnica dificultando, portanto, o entrosamento entre as partes. Pois os mesmos não estão preparados ainda para essa finalidade. Enquanto isso os atravessadores aproveitam o espaço para aplicarem exageradamente o que lhes convém, tanto que a maioria dos habitantes que dependem do cultivo da terra não confiam mais e nem podem confiar nas partes financeiras, assistenciais e político-partidárias, pois todas giram no mesmo eixo.

Diante de todos esses impedimentos surgem alguns efeitos positivos. Os habitantes serranos especialmente os trabalhadores com suas experiências vêm catando alguns conhecimentos e solidificando sua prática e lentamente fugindo das garras de seus predadores, pelo menos em parte. Hoje essa gente já pode respirar mais forte graças a sua independência municipal.

Lagoa Nova por direito faz suas reivindicações diretas aos poderes competentes, obtendo desses recursos em benefício da população urbana e rural, apesar desses recursos mínimos nem todos serem bem aplicados, mas, o que é criteriosamente implantado dá ótimos resultados e tem evoluído o município consideravelmente. Especialmente nos setores de: Educação, saúde, eletrificação, comunicação e saneamento básico. Esse último não está concluído, mas já foi iniciado. O coletor das águas servidas está pronto, a rede de esgoto estendida, mais todas as ligações habitacionais ainda não foram feitas, o que ocorrerá lentamente de acordo com o crescimento da cidade.

A água que abastece a cidade (zona urbana) é tratada e canalizada e na zona rural a água é transportada em carros pipas e depositada em chafarizes apropriados de onde é coletada e usada pelos moradores locais. Esse trabalho foi construído no período de 1997 a 2000 e funciona pontualmente até a presente data. Existe um plano do Governo do Estado já iniciado, trata-se do abastecimento total em todo o Município, mas, não somente no Município de Lagoa Nova, como também nos vizinhos é a “A Adutora da Serra de Santana”. Dependendo é claro do apoio administrativo dos municípios integrantes na Chapada da Serra.

Já conhecemos que a chapada da serra, atualmente é dividida para seis municípios, sendo dois totalmente serranos com área e sede, são eles, Lagoa Nova e Tenente Laurentino Cruz. Enquanto que, Cerro Corá, Santana do Matos, Bodó e São Vicente, integram apenas porções.

No Rio Grande do Norte, as cidades foram fundadas no início com o povoamento do litoral do estado na orla marítima, especialmente na zona pesqueira e salineira, como também na zona da mata onde a terra se adaptava bem para o cultivo da cana de açúcar. No interior do estado as cidades foram formadas às margens dos rios, onde houvesse a possibilidade da introdução da pescaria e também do cultivo do algodão arbóreo no alto sertão Seridó e adjacências onde houvesse água suficiente para tal fim.

No cimo das serras, nos altos não era possível a criação de conjuntos habitacionais. A Serra de Santana é uma área com as características seguintes: Em toda chapada serrana não existe rio riacho ou córrego, o terreno é arenoso e absorvente, o que faz desaparecer as águas das chuvas quando caem rapidamente. Não existe minadouro ou vertente. Em ano bastante chuvoso acontece, as vezes, surgir no despenhadeiro da serra pequenos olheiros, mas a água minada geralmente é salobra, intragável e com duração curta. Foi esse o motivo que tanto dificultou o povoamento na chapada da Serra de Santana, conforme o que os leitores observaram nas descrições contidas nesse minúsculo livreto, que não é tudo. Mas sim, o que consegui ver, ouvir, sentir e fazer chegar ao conhecimento de todos aqueles que por interesse ou curiosidade tiverem oportunidade de conhecê-lo. Esse trabalho pelo qual me empenhei, sem egoísmo, sem exagero ou vaidade pessoal, mas sim com uma única finalidade, levar aos lagoanovenses especialmente a estes que chegaram ao século XXI e não viram como se iniciou a nossa cidade.

Lagoa Nova na Serra de Santana, pequena em número habitacional, mas bem estruturada, iluminada, calçada, saneada, não há favelas, iniciada e continuada com interesse exclusivo dos seus próprios habitantes que destemidamente integraram-se na luta em busca do objetivo desejado, o qual em parte já alcançado na esperança e confiança de que os habitantes que vão surgindo tenham o mesmo empenho que sempre tiveram desde os primeiros habitantes aqui residentes até o momento atual.

É muito difícil fazer um trabalho quando não se tem o material adequado para a execução do que se pretende fazer, nesse caso, a pessoa põe toda a confiança em si própria e inicia o que se propõe. Foi assim que os primeiros habitantes fizeram ao chegar em Lagoa Nova, cada um fazia o que podia e sabia. Seguindo o exemplo destes, aqui estou, levando o conhecimento até aqueles que tiverem oportunidade de ler esse simples trabalho.

No início, os primeiros habitantes que aqui chegaram eram pessoas humildes, desprovidas de qualquer instrução, até mesmo para cultivar a terra de que em tudo dependiam. Mesmo assim, cada um dava sua parcela de contribuição, participando nos trabalhos e cooperando uns com os outros que pugnavam pela mesma causa no sentido de desenvolverem o meio em que viviam. Entre muitos cito o nome de alguns que fizeram o que podiam e sabiam.

Ainda no final e 1800, o velho Roberto conseguiu fazer telhas, com o limo concentrado na lagoa. Em seu lugar ficaram Francisco Américo, José Raposa e outros. Francisco Américo também trabalhava como carpinteiro e cortava cabelo. João Camilo era prático em ladrilhos para forno de torrar farinha, conhecia bem como lidar com o barro e tinha a máxima habilidade na confecção. Cândido Pedro Barbosa, era pedreiro, carpinteiro e ferreiro, de tudo fazia um pouco. Foi ele o primeiro proprietário de automóvel de Lagoa Nova, jipe e caminhão, e ele mesmo era o chofer e mecânico de seus veículos. Como ferreiro confeccionava vários objetos no ramo.

Francisco Aprígio e Silva, lagonovense, também ferreiro, consertava relógios, máquina de costura e armas de fogo. Tertuliano Pereira nasceu no município de Acari, mas veio com o pai morar em Lagoa Nova. Ainda em sua juventude, era agricultor, carpinteiro, pedreiro, ferreiro e torneiro. Foi ele o mais hábil torneiro da região, como ferreiro desempenhou excelente trabalho no ramo e fabricou os primeiros arados aqui em Lagoa Nova, que eram munidos com uma só lâmina e movidos a tração animal. Depois fabricou carpideiras, como as atuais, ainda existem várias fabricadas por ele ainda em funcionamento. Morreu aos noventa e dois anos de idade.

Leônidas Pereira, irmão de Tertuliano Pereira, tinha por principal profissão ser cabeleireiro, a qual iniciou aos quinze anos de idade. Exerceu essa profissão em várias cidades do estado, entre outras Macau, Mossoró e São José de Mipibú, onde era chefe de salão. Hoje Leônidas mora em Lagoa Nova, com noventa e cinco anos de idade, ainda corta cabelo daquelas pessoas que não o esquecem. Faz o trabalho com perfeição e mantem a mesma habilidade.


Formação Administrativa

O Distrito de Lagoa Nova, foi criado em 1 º de janeiro de 1959, sob a lei nº 2321, de 05 de dezembro de 1958 e a Lei nº 2349, de 31 de dezembro de 1958.

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